A política japonesa nos animes | Parte 1: O progressismo pacifista do pós-guerra

*Este é um artigo de opinião do autor, não representa necessariamente a opinião da WDN como um todo.

 Os leitores que acompanham o site da WDN com uma certa frequência definitivamente vão estranhar o autor. Eu costumo ajudar o site mais em eventos, e de vez em quando posto alguns posts de opinião, e minha não aparição por aqui tem um motivo: é difícil conciliar a faculdade com a WDN, então aproveito meus momentos de férias pra fazer o que posso. Eu curso história, e agora, de férias, parei pra pensar: "Por que não utilizo isso ao meu favor?" E o resultado é o presente texto.



Muitas vezes esquecemos, mas mangás e animes são arte também. Parece até canalhice dizer isso com o tanto de shonen genérico, isekai sem sentido, e obras de puro fan-service, quase hentai que vemos temporada após temporada, mas é impossível de negar que essas obras também são arte, e toda arte tem uma mensagem por trás. O dicionário do google define arte como "produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana.", assim, a gente passa a se questionar, qual a mensagem que os animes que inocentemente assistimos querem passar a nós?

Para entender isso, vamos entender a origem do animê e mangá como conhecemos hoje. Primeiro, é importante notar: a arte no Japão se desenvolveu muito tempo atrás. Durante a prosperidade japonesa do período Edo, que dura do início do século XVII até meados do século XIX vemos a arte se desenvolver no famoso estilo de arte ukiyo-e. Nesse periodo o termo "manga" começa a ser utilizado com o sentido de "rascunho livre" ou "esboço", como no Hokusai Manga, publicado em 1814, uma série de desenhos feitos por Hokusai, conhecido por produzir A grande Onda de Kanagawa.

O início do Mangá: rascunhos livres

O mangá como conhecemos hoje - serializado e com histórias épicas - porém, vai surgir somente em meados de 1910/20, durante o final do período Meiji e início do período Taisho (que é retratado em Demon Slayer), e é nesse período também que surgem os primeiros animês (o termo aqui significa qualquer animação produzida no Japão). Isso não é por acaso, durante os 200 anos do período Edo, os portos japoneses foram fechados, e o contato com o ocidente foi mínimo, assim, após a reabertura dos portos em 1854, o conteúdo ocidental passa a influenciar consideravelmente a cultura japonesa, e durante os anos 10/20/30, a onda de quadrinhos e animações vindas do ocidente vão influenciar a criação destes também no Japão, culminando em obras como Sho-chan no Boken, de 1923, que influenciou até mesmo Osamu Tezuka, considerado o pai do mangá.

Porém, a popularidade mesmo veio somente nos anos 60. A razão é simples, durante o período de guerra e início do pós guerra, a escassez de papel fez com que se tornasse impossível a publicação destas obras, mas devido ao rápido crescimento econômico e industrialização do Japão durante 1955 e 1961, o país viveu uma grande prosperidade econômica, e passou a exportar mais que produtos industrializados, mas também, obras dos diferentes tipos. Logo, o Japão se reapresentou ao mundo como um país estável, pacífico e rico, as Olimpíadas ocorridas em Tóquio em 1964 marcaram essa prosperidade, e durante esse período, surgiram os primeiros animes a ficarem famosos no ocidente: Astro Boy, Speed Racer e Kimba, o Leão Branco.

Os anos 60, o ínicio da popularização dos animes. Fonte: GameRant

Estas obras, exportadas para o ocidente mostraram como o Japão voltou, dessa vez pra ficar, e sentaria na mesma mesa dos grandes países ocidentais, aliás, de 1969 a 1991, o Japão foi a terceira maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA e da URSS, e após a queda da última, foi a segunda maior economia até ser superado pela China, em 2010. Isso inclusive é uma informação essencial pra esse artigo, pois no final dos anos 70, a economia já havia estagnado, o Japão não crescia mais, afinal, não havia para onde crescer, e o país já havia se estabelecido enquanto potência no cenário internacional, então os animes não se limitaram à temática de "competir com as animações ocidentais" com séries infantis, e muitos animes sérios começaram a ser publicados com uma mesma temática: A guerra e seus efeitos.

Durante os anos 70/80/90 surgirão diversas obras que seguem a mesma ideia principal. Mostrar de forma implícita ou explícita como a guerra afeta as pessoas. A maioria dos diretores que publicaram animes neste período nasceram no final dos anos 30 e início dos anos 40, e viveram sua infância num país recém-devastado pelas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, cresceram com famílias traumatizadas pelos efeitos da guerra, e sentiram a necessidade de alertar o país a nunca voltar a esse período. A questão do nacionalismo também é muito importante nisto, pois o país foi praticamente proibido de ter uma identidade nacional, afinal, o nacionalismo foi a base ideológica do Japão Imperial, principalmente durante a guerra. O país mudou sua bandeira, sua língua e cultura foram alterados devido a influência americana.

Nesse contexto, em 1979, surge Mobile Suit Gundam. Uma série que a primeira vista parece como uma ficção científica qualquer, mas nas entrelinhas, mostra uma grande crítica a guerra. O nacionalismo de Zeon e da Federação da Terra começa uma guerra aparentemente sem sentido, onde ninguém se beneficia, aliás, o foco da série não é a guerra entre Zeon e a Federação, mas o impacto dela em Amuro e seus amigos. Amuro, que mal via seu pai, engenheiro da Federação, convive com as mortes, violência e o horror da guerra, e com apenas 15 anos é obrigado a amadurecer e se tornar soldado do exército, pilotando o Mobile Suit Gundam, considerado a única esperança da Federação. Ele precisa matar seus inimigos pra proteger quem ama, mas odeia esse fardo e a todo momento quer abandoná-lo. Amuro convive com diversas crianças, sua amiga de infância, Fraw Bow, e diversos soldados que têm a sua idade, e precisa vencer a guerra para protegê-los. A vida de Amuro é a vida de qualquer soldado na guerra, combate jovem, amadurece cedo, e arrisca sua vida, sem vontade, em uma guerra que não tem nada a ver com ele para que possa proteger quem ama.


Mobile Suit Gundam: a crítica a guerra representada pelos Mechas/ Reprodução: Crunchyroll/Sunrise

Além disso, muitos dos animes de ficção científica da época surgem com a temática de "arma impossível de se combater" para fazer referência a bomba atômica. Esse tema de "monstro/arma imbatível" é um clássico na cultura pop japonesa, e sua origem faz referência as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O próprio Godzilla, criado em 1954, é uma analogia muito clara a bomba atômica, o monstro gigante, todo-poderoso e imbatível que assola as cidades, destrói tudo e dizima a população. Usam da mesma lógica os mobile suits de Gundam, os ataques de meteorito de Patrulha Estelar Yamato, e os anjos, de Neon Genesis Evangelion.

Evangelion, aliás, é mais um dos animes que segue a linha de mostrar os efeitos da guerra, mas este, foca na questão psicológica que estes efeitos causam em cada um de seus personagens. ATENÇÃO: SPOILERS!!! SE NÃO DESEJA VER SPOILERS DE EVANGELION, NÃO LEIA O PRÓXIMO PARÁGRAFO!

O protagonista, Shinji é abandoado, ele perde a mãe, pesquisadora sobre os anjos, e é negligenciado pelo pai, que comanda a NERV, por isso, vive distante, sem amigos, sem família, sem ser reconhecido ou receber carinho de qualquer pessoa, e assim, se ilude com qualquer demonstração de amor e reconhecimento dada a ele. Shinji só tem utilidade quando pilota o EVA, e faz isso contra a sua vontade, pois se não pilotar, outras pessoas sofrerão consequências, um fardo parecido com o de Amuro Ray. Shinji porém, não é o único que sofre com isso, Misato perde o pai em pesquisas com os anjos e vive com este trauma, Rei foi (literalmente) criada com o único intuito de pilotar o EVA, e Asuka convive com a necessidade de impressionar os outros, pois foi negligenciada por sua mãe, que para de enxergar ela como filha e se suicida após fazer um teste com um EVA. O foco do anime é o psicológico e as atitudes de cada um dos personagens, mas é fácil perceber como nenhum dos traumas dos personagens ocorreria se os anjos (e a guerra contra eles) não existisse.

FIM DOS SPOILERS!!

Além da ficção científica, muitos autores e diretores buscaram mostrar de uma forma realista a guerra, e como ela foi cruel, impactou diversas famílias e trouxe consequências irreversíveis. De 1973 a 1987 foi publicado o mangá Gen Pés Descalços, que foi transformado em dois filmes de anime, em 1983 e 1986. O mangá e os filmes mostram a história de Gen Nakaoka, vivendo em Hiroshima no ano de 1945, seu pai é crítico da guerra, e precisa fugir da perseguição depois que as pessoas descobrem isto. Para restaurar a honra da família, seu filho, irmão de Gen, se alista para lutar na guerra. No dia em que a bomba atômica é jogada sobre a cidade, o pai de Gen e todos os seus irmãos morrem, somente ele e sua mãe grávida escapam. O trauma do evento faz com que sua mãe realize o parto da criança antes da hora. A partir daí, o mangá mostra as dificuldades de Gen e sua família para sobreviver num mundo sem sua casa e sem sua família, num Japão instável e destruído pela bomba, com uma população enfurecida, desesperançosa e pobre. O mangá é repleto de histórias tristes, e é baseado na vida do autor Keiji Nakazawa, sobrevivente da bomba.

A transição do mangá para anime, apenas serviu para intensificar ainda mais as emoções trazidas pela obra. Apesar de já ter 40 anos, a cena da bomba explodindo na cidade de Hiroshima e matando seus habitantes talvez seja a mais chocante da história dos animes.



Outro bom exemplo de um anime realista baseado na guerra é O Túmulo dos Vagalumes, a primeira (de muitas!) obra-prima do Studio Ghibli. O filme de 1988 mostra a trajetória de dois irmãos, sobreviventes do bombardeio de Kobe, no final da 2ª guerra, e seus desafios para continuar vivos em meio a miséria, desnutrição, destruição e desprezo da população em sua volta, o trágico e renomado filme é um dos mais relembrados filmes anti-guerra da história, e não é o único do Studio Ghibli a conter essas mensagens. Se O Túmulo dos Vagalumes foi a maneira de Isao Takahata falar contra a guerra, seu companheiro, e considerado um dos mais lendários diretores de anime, Hayao Miyazaki foi dar sua mensagem contra a guerra em outro filme: O Castelo Animado.  Apesar de ser uma obra de ficção e ser baseado em um livro, o filme contém mensagens explícitas sobre o horror da guerra, e até mesmo contém uma cena de bombardeio.

 Para finalizar os exemplos, temos também Osamu Tezuka, que já falamos anteriormente. O mesmo que criou mangás que ajudaram a estabelecer a imagem do Japão como nova potência, e "reapresentaram" o Japão pro mundo, também participou da onda de obras contra a guerra com seu mangá Adolf, publicado de 1983 a 1986, que conta a história de 3 homens chamados Adolf durante a 2ª guerra: Adolf Kaufmann, filho de um expatriado nazista com uma japonesa, que vive com a expectativa de seu pai para se tornar um apoiador do Reich, e para cumprir os desejos deste, eventualmente vai a Berlim para participar da Juventude Hitlerista; seu melhor amigo, Adolf Kamil, que também vive no Japão, mas este é descendente de judeus asquenaze; já o terceiro Adolf, é Adolf Hitler. 

A história dos três se une por conta da busca de documentos que provariam que Hitler teria sangue judeu, e durante o percurso, eles convivem com as diversas faces da guerra, violência, lavagem cerebral, estupro e diversos eventos que colocam em cheque a amizade de Kamil e Kaufmann, e levam a cada vez mais violência e vingança.


Edição Brasileira de Recado à Adolf, da Pipoca e Nanquim

A temática das produções japonesas neste período se relaciona diretamente com o momento político que vivia o país. A falta de um nacionalismo devido a influência americana leva a crítica da guerra, que foi justamente causada por conta de nacionalismo exacerbado, a estabilidade do país enquanto terceira maior potência econômica faz com que as obras populares, infantis, e "exportáveis", digamos assim, diminuam, e aumentem a quantidade de obras críticas e reflexivas, especialmente no que se refere a história do próprio país. 

Essas tendências liberais por parte dos japoneses vai alterar também o seu cenário político. Apesar de serem governados pelo Partido Liberal-Democrata (que apesar do nome, é conservador e de direita) de 1955 a 1993, a primazia do partido se justifica muito por conta da interferência americana nas eleições japonesas em benefício do partido, e mesmo com este sendo eleito, teve de realizar diversas concessões e tomar atitudes diferentes de sua política em prol de características mais liberais ou progressistas que eram apoiadas pela maior parte da população. É importante notar que os partidos de maior relevância logo abaixo do Liberal-Democrata eram o Socialista e o Comunista até 1993.

No ano de 1993, as tendências liberais dos japoneses trazem um primeiro ministro de outro partido, Morihiro Hokosawa, do Novo Partido Japonês, de tendência mais liberal e de centro-direita. Já de 1994 a 1996, governou Tomiichi Murayama, do partido Social Democrata japonês, de centro-esquerda.


Tomiichi Murayama, primeiro-minstro de centro-esquerda que quebrou a hegemonia 
do Partido Liberal-Democrático./Reprodução: Financial Times

Embora como veremos posteriormente, as tendências liberais do Japão não duraram muito tempo, é interessante observar como elas influenciam a arte, e como muitas vezes, alguns dos animes que assistimos inocentemente podem acabar trazendo mensagens ou ideologias sem percebermos. Precisamos ter noção de que não existe arte desprovida de política e de ideologia. Até mesmo o seu fan-service preferido tem um pingo de política nele (e como pretendo mostrar posteriormente, principalmente o seu fan-service preferido!). Independente da sua ideologia política, precisamos ter noção disso no nosso dia a dia, seja para nos defender de propaganda, ou para apreciar mais nossos animes preferidos, e ter noção que a sua obra preferida é fruto do tempo e do lugar onde ela foi produzida.

Este texto faz parte de uma coletânea de duas partes, com a segunda parte fazendo o sentido reverso, e mostrando como os animes contemporâneos são fortemente influenciados pela política e ideologia do Japão atual, e como os seus mechas, fan-services e slice-of-life preferidos também tem muita ideologia e política por trás deles, então fique atento na WDN pra ler esse texto também, e continue acompanhando nosso site para ver artigos como esse, notícias sobre o mundo dos animes e muito mais!

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