A Dublagem como Patrimônio Cultural: Entre Memória, Arte e Reconhecimento Oficial

A dublagem brasileira sempre ocupou um espaço especial na cultura audiovisual do país. Mais do que uma técnica de adaptação linguística, ela se consolidou como uma forma de arte que traduz culturas, aproxima públicos e cria vínculos afetivos duradouros. Apesar de sua relevância, por muito tempo a dublagem foi subestimada, vista apenas como recurso comercial.

O livro “Versão Brasileira: A Dublagem como Patrimônio Cultural – uma proposta de exposição, preservação e difusão da arte da dublagem”, de Maisa Lacerda, já se destacava por propor uma reflexão inovadora: considerar a dublagem como patrimônio cultural imaterial. A autora constrói sua defesa com base em pesquisa histórica, análise crítica e uma proposta museológica que valoriza a memória dos profissionais da área.

A obra surgiu em um momento oportuno, em que a dublagem brasileira, apesar de sua relevância histórica e cultural, ainda lutava por reconhecimento institucional. A autora partiu de uma questão central: a dublagem pode ser considerada patrimônio cultural imaterial? A resposta é construída ao longo do livro com base em pesquisa histórica, análise crítica e uma proposta museológica inovadora.

A dublagem como arte e memória

O livro resgata a trajetória da dublagem no Brasil, desde sua introdução nos anos 1930 até sua consolidação como prática artística e profissional. Maisa evidencia como a dublagem moldou gerações de espectadores, tornando acessíveis filmes, séries e animações para públicos diversos. Esse aspecto é fundamental: a dublagem não é apenas técnica, mas também arte que traduz culturas e cria vínculos afetivos.

Patrimônio Cultural e Reconhecimento

Um dos pontos mais fortes da obra é o diálogo com conceitos de patrimônio cultural imaterial, tal como definidos pela UNESCO e pela legislação brasileira. A autora argumenta que a dublagem cumpre critérios de relevância social, artística e educativa, sendo parte da identidade cultural do país. Essa defesa é consistente e abre espaço para debates sobre outras práticas culturais cotidianas que ainda não receberam reconhecimento oficial.

A Proposta Museológica

O diferencial do livro está na proposta de criação de uma exposição dedicada à dublagem, com acervos de registros sonoros, entrevistas, documentos e memórias de profissionais. Essa ideia amplia o horizonte da preservação cultural, transformando a dublagem em objeto de estudo e fruição estética. É uma iniciativa que valoriza não apenas o produto final, mas também os bastidores e os artistas que deram voz a personagens icônicos.

Dessa forma, podemos destacar:

  • Inovação: ao propor a musealização da dublagem, a autora rompe com a visão restrita de que se trata apenas de uma técnica de mercado.
  • Valorização da memória: o livro resgata nomes e histórias de dubladores, estúdios e produções que marcaram a cultura audiovisual brasileira.
  • Relevância social: destaca a dublagem como instrumento de acessibilidade, inclusão e educação, ampliando seu papel além do entretenimento.

Por se tratar de uma obra com forte viés acadêmico, alguns trechos podem soar densos para leitores não familiarizados com conceitos de patrimônio cultural ou museologia. Ainda assim, a autora consegue equilibrar teoria e prática, tornando o texto acessível a profissionais da comunicação, estudantes e interessados em cultura.

Reconhecimento Oficial em 2025

O debate levantado pela obra ganhou ainda mais relevância em setembro de 2025, quando a dublagem brasileira foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Esse marco histórico ocorreu após a aprovação do Projeto de Lei 3385/2024, de autoria da deputada Professora Luciene Cavalcante, na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. O projeto contou com apoio do relator, deputado Tarcísio Motta, e foi celebrado por movimentos como a campanha Dublagem Viva, que há anos defendia maior valorização da categoria.

Esse reconhecimento formal insere a dublagem no rol das práticas culturais que devem ser preservadas e difundidas, conforme diretrizes da UNESCO e da legislação brasileira. Mais do que um título simbólico, trata-se de uma conquista que fortalece a identidade cultural nacional e dá visibilidade a profissionais que dedicam suas vozes para enriquecer a experiência audiovisual de milhões de brasileiros.

Com o reconhecimento oficial da dublagem como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, em setembro de 2025, o livro de Maisa Lacerda ganha ainda mais relevância. Ele não apenas defende a importância da dublagem, mas se torna parte de um movimento histórico que consolidou essa arte como elemento da identidade cultural brasileira. É uma leitura indispensável para compreender como práticas cotidianas podem se transformar em símbolos de memória coletiva e patrimônio nacional.

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