Ruas da Glória (REVIEW): Entre o Desejo e a Solidão

Felipe Sholl constrói em Ruas da Glória um longa-metragem que é ao mesmo tempo brutal e poético, um retrato da solidão e do desejo que se desenrola nas ruas do Rio de Janeiro. O filme acompanha Gabriel, vivido por Caio Richards, um jovem que abandona a família rica em Recife e mergulha na metrópole carioca em busca de anonimato e liberdade. Essa fuga, que inicialmente parece libertadora, logo se transforma em uma espiral de dependência emocional e obsessão, revelando a fragilidade das relações e a dificuldade de homens gays em lidar com afeto e vulnerabilidade. O Rio de Janeiro, mais do que cenário, é personagem: um espaço que fascina e sufoca, um vulcão prestes a entrar em erupção, onde cada esquina carrega tanto promessa quanto tragédia.

A força estética do filme está na forma como a câmera percorre corpos e espaços urbanos, criando metáforas visuais para o desespero e a busca por afeto. As cenas carnais são intensas, mas nunca gratuitas; carregam tensão psicológica e traduzem a atmosfera sufocante que envolve os personagens. Sholl evita o voyeurismo fácil e aposta em uma narrativa que, embora simples, ganha potência pela intensidade emocional. O espectador é conduzido a sentir o peso da obsessão, a claustrofobia da dependência e a ambiguidade da solidão urbana, que pode ser tanto libertadora quanto devastadora.

Gabriel é o fio condutor dessa jornada, mas o filme é menos sobre ele como indivíduo e mais sobre o que sua experiência revela: a linha tênue entre desejo e aprisionamento, a dificuldade de transformar paixão em cuidado, a vulnerabilidade exposta quando se busca afeto em um mundo que insiste em oferecer apenas anonimato. A relação que se constrói e se desfaz diante de nossos olhos é um espelho das lacunas emocionais que atravessam a vivência gay contemporânea, e Sholl não suaviza essas dores. Ao contrário, ele as expõe em sua forma mais crua, sem medo de incomodar.

O resultado é um filme que mistura lirismo e brutalidade: Ruas da Glória não é feito para confortar; é feito para provocar, para deixar marcas profundas no espectador. Sua intensidade pode soar sufocante para alguns, mas é justamente essa escolha estética que o torna tão singular. Felipe Sholl entrega uma obra que transforma o caos em poesia, que revela o Rio como palco de desejo e dor, e que nos lembra que a fragilidade humana, quando exposta sem filtros, pode ser ao mesmo tempo devastadora e bela. É um longa que incomoda, emociona e permanece, ecoando muito além da sala de cinema.

Informações sobre a estreia

  • Data de estreia nacional: 2 de abril de 2026 (quinta-feira).
  • Locais de exibição: Cinemas em diversas capitais e cidades brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, Porto Alegre, Salvador, Goiânia, Campinas, Niterói, Cuiabá e Vitória.
  • Pré-estreias: O filme já havia sido exibido em circuito selecionado e em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Festival do Rio 2025, onde conquistou prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante (Diva Menner) e Melhor Ator Coadjuvante (Alejandro Claveaux).

Essa Review foi realizada à convite da Retrato Filmes (distribuidora do filme), nós da WDN agradecemos ao apoio da distribuidora!

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